quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Safety Last!", Fred C. Newmeyer e Sam Taylor (1923)


“Safety Last!” é uma das comédias mais engraçadas da história do Cinema e a piada começa no título original, que brinca com a expressão "safety first" (segurança em primeiro lugar). Nos anais da história do Cinema ficará para todo o sempre a impressionante cena de Harold Lloyd pendurado nos ponteiros do relógio de uma arranha-céus nova-iorquino.
 
 

"Safety Last!" é acima de tudo um filme-veículo para a comédia de Lloyd, contando-nos a história de um rapaz do interior que deixa a sua terra Natal para se aventurar na grande cidade. Chegado a Nova Iorque divide um quarto com seu amigo “Limpy” Bill e consegue um emprego de vendedor numa loja; para provar aos seus que tinha alcançado o sucesso imediato, penhora o fonógrafo de Bill, compra um pingente e escreve para a sua namorada que ele é o gerente da loja. A partir daqui reina o caos ... Inesquecível.
 
 
"Os Lobos", Rino Lupo (1923)
 

O Cinema Português ainda nas mãos de realizadores estrangeiros. "Os Lobos" teve a realização do italiano Rino Lupo, no mesmo ano em também realizou "Mulheres da Beira" e que Georges Pallu realizou "Cláudia" e "Lucros Ilícitos", interrompendo assim o plano de adaptações literárias seguido pela Invicta Film, para além do "Primo Basílio", e Roger Lion dirigiu "Os olhos da Alma".
 
"Os Lobos" passa-se na Serra da Cabreira, numa aldeia dominada pela tradição patriarcal: a mulher ocupa-se das lidas do lar ou recolhe lenha; o homem vela pelos rebanhos ou abate árvores de que fará carvão. Após cumprir pena por crime passional, um marítimo chega àquelas paragens, convertendo-se em elemento de fascínio e desagregação da estrutura arcaica.

 

"Mysterien eines Frisiersalons" (a.k.a. The Mysteries of a Hairdresser's Shop), Bertolt Brecht e Erich Engel (1923)


"Mysterien eines Frisiersalons" é uma curta-metragem absurdamente hilariante, com uma história surrealista escrita e realizada pelo dramaturgo Bertolt Brecht e Erich Engel.

Numa barbearia, o famoso Professor Moras, autor do "best-seller" “Como Ser Atraente”, pede ao desajeitado barbeiro para cortar o seu cabelo e barba exactamente igual ao poster exposto numa porta. Entretanto a assistente da barbearia acidentalmente vira o poster ao contrário, expondo a foto de um chinês skinhead com uma barba partida ao meio, pelo que o barbeiro segue exactamente esse estilo. Neste meio tempo, a assistente, que tem uma paixão por Moras, fica com ciúmes da sua acompanhante e maltrata a mulher na cadeira. A mulher grita, e os três clientes que estão a esperar a sua vez ficam apavorados, pois leram na primeira página do jornal que um homem foi cortado na cabeça pelo seu barbeiro.
 
 
O Professor Moras deixa a barbearia completamente irritado com sua estranha aparência e quando ele encontra uma sua conhecida no restaurante, ele coloca o chapéu de um cliente que está pendurado para ocultar a sua careca. O cliente acredita que ele está a roubar o chapéu e desafia-o para um duelo com sabres; todavia, antes da luta, o homem vai à barbearia e o barbeiro assusta-se e acidentalmente decapita-o. O barbeiro prende, então, a cabeça com uma fita, mas durante o duelo, a assistente usa uma cana de pesca para remover a cabeça do homem e salvar o seu amado Moras.
"Der Schatz", Georg Wilhelm Pabst (1923)


"Der Schatz" trata-se do debute cinematográfico de Pabst, feito através das mãos de um dos pioneiros do cinema alemão, Carl Froelich. Pabst realizou "Der Schatz" ainda no estilo do cinema expressionista, quando este estava no seu auge na Alemanha. Os personagens são movidos por pulsões mesquinhas, tão avaros e cobiçosos que se destroem na busca de um suposto tesouro escondido durante as invasões turcas na Áustria em 1683.
 
O sineiro Svetocar Badalic (Albert Steinrück) vive com a mulher Anna (Ilka Grünig), a filha Beate (Lucie Mannheim) e o ajudante Svetelenz (Werner Krauss) numa velha casa no interior do bosque austríaco. Na calada da noite, secretamente, Svetelenz procura desenterrar o tesouro. Com mais sorte, o jovem ferreiro Arno (Hans Brausewetter) chega à casa, apaixona-se por Beate e encontra o tesouro. Sventelenz, Svetocar e Anna tentam descartar Arno para ficarem com todo o tesouro, ao mesmo tempo em que discutem entre si, roídos pela ambição. Cavam literalmente a própria cova, enquanto o jovem casal salva-se fugindo para um novo lar.
 

Na sua atmosfera e na sua unidade de ação, "Der Schatz" revela um realizador influenciado pelo cinema sueco e pela técnica do "Kammerspiel": apenas cinco personagens desenham o conflito mortal. A casa do sineiro aparece atarracada e estufada, como um monte fofo de argila sem fundações, já prestes a seguir o seu destino. E quando o ajudante do sineiro (Werner Krauss) aventura-se na escuridão para apanhar uma varinha mágica capaz de detectar tesouros, galhos saem dos espinheiros como ossos de esqueleto sob o disco brilhante de uma lua de estúdio. Através de sombras projetadas nas paredes, Pabst mostra-nos como o ajudante arrasta-se no chão a farejar ouro de forma animalesca.

Apesar deste primeiro filme expressionista, Pabst acabaria por celebrizar-se pelo “realismo social” dos filmes que realizou durante a República de Weimar, associados ao movimento estético da Nova Objetividade. Ele é geralmente citado como o único exilado que regressou para trabalhar para o Terceiro Reich. Pensava-se, de facto, que Pabst fosse um socialista engajado em políticas “progressistas”, tendo denunciado os horrores da Primeira Guerra; a solidariedade entre mineiros franceses e alemães; o caos do pós-guerra, aonde a miséria e a inflação conduziam os trabalhadores ao desemprego e as mulheres à prostituição.
 
 

Devido a esses engajamentos, confirmados pela divulgação fílmica da psicanálise de Sigmundo Freud e pela adaptação de uma obra de Bertolt Brecht, pensava-se que Pabst havia optado conscientemente pelo exílio em 1933, quando os nazistas tomaram o poder na Alemanha através da acção combinada do terror nas ruas, da propaganda em massa e da democracia representativa despreparada para sua destruição “por dentro”. Contudo, a preocupação social não era alheia ao nacional-socialismo: a denúncia das mazelas da sociedade não bastaria para alinhar ninguém nas fileiras da resistência, não significando uma automática oposição ao nazismo. Dentro do “realismo social” cabiam tanto os artistas comunistas ou simpáticos ao comunismo quanto os artistas nazis.
 
De origem proletária, filho de um ferroviário, nascido em Raudnitz, em 1885, Pabst sempre foi um espírito inquieto: bem jovem foi para Nova Iorque com o objetivo de tornar-se actor de teatro. Em 1914 voltou, atravessando a França, onde foi surpreendido pela eclosão da Primeira Guerra. Foi internado por quatro anos como “cidadão inimigo” num campo de prisioneiros. Libertado, partiu para Berlim, onde se associou, como argumentista ao veterano cineasta Carl Frölich, que mais tarde aderiria ao nazismo.

sábado, 29 de dezembro de 2012

"Our Hospitality", John G. Blystone e Buster Keaton (1923)
 

Este é o filme dos Keaton, na medida em que conta com três gerações da família: Joe Keaton, o pai, Buster Keaton, seu filho, e o filho deste último com apenas quinze meses de vida, para além da própria mulher de Buster, Natalie Talmadge, que, aquando das filmagens, estava grávida do segundo filho. "Our Hospitality" é um filme divertido, onde tudo é directo e funcional.


"Our Hospitality" pega num tema caro a Shakespeare, a rivalidade entre duas familias, com Keaton a constroir uma comédia de costumes sulistas à volta dos clãs Canfields e McKays. Buster interpreta o jovem Willie McKay que regressa à sua cidade natal após a morte do pai, envolvendo-se com Virginia Canfield (Natalie Talmadge) filha de Joseph Canfield (Joe Roberts) patriarca da família Canfield. O filme envolve uma série de situações extremamente cómicas que sublinham o grande talento de Buster Keaton.
 
 
"Le Brasier Ardent", Ivan Mosjoukine (1923)


"Le Brasier Ardent" é um filme sobre um pesadelo de uma mulher, que está a ser perseguida por um mesmo homem em diferentes disfarces e em diferentes situações. Ao acordar ela percebe que esse homem é o detetive Z, personagem da história que havia lido antes de adormecer.
 
Este filme onírico é o único realizado e interpretado em França pelo mais famoso actor russo da época, Ivan Mosjoukine, o qual com a sua mulher, Nathalie Lissenko, e outros tantos fazem parte de um grupo de actores e cineastas que emigraram para França após a Revolução de 1917.
 
O actor russo é um especialista de expressões faciais, sendo a sua presença no grande ecrã absolutamente enorme. "Le Brasier Ardent" é um filme excitante pela sua criatividade, imaginação e pelos seus efeitos gráficos num notável trabalho de luz. Com essas imagens, Mosjoukine foi capaz de derreter o real e o imaginário, criando um ambiente onírico que muito se aproxima de Murnau. Murnau também é sentido na profundidade das personagens, bem como Benjamin Christensen, pela terrorífica sequência onírica, e Sergei Eisenstein, pelo estudo dos rostos humanos.


"Die Strasse", Karl Grune (1923)


"Die Strasse" é um testemunho directo da crise moral que atravessava a nação alemã no pós-guerra. É a história de um funcionário público que se cansa da sua vida familiar e se sente irresistivelmente atraído pela vida nocturna; seduzido por uma jovem cai numa espiral de atracção pelos lugares mais ambíguos da cidade. O drama decorre numa só noite, na qual o protagonista é acusado de assassinato.

 
No filme Grune toda a temática gira em torno deste indivíduo rebelde, que abandona a segurança da sua casa e segue as suas paixões na rua, mas que no final regressa e se submete às exigências da vida convencional. Tal como na maior parte dos filmes alemães da época a rua (die strasse) representa o apelo do Destino, principalmente à noite, com os seus cantos escuros, onde se mergulha como num abismo com o seu tráfego fulgurante, os seus postes iluminados, os seus sinais luminosos, os faróis dos automóveis, o asfalto brilhante da chuva, as janelas acesas de misteriosas casas, o sorriso das jovens de rosto pintado. A seducão voluptuosa para os pobres coitados que cansados de sua sala de estar e da monotonia de suas vidas, procuram a aventura e a evasão.